ARTIGOS

13/11/2017 / Hexafluorine

Queimadura por ácido hidrofluorídrico e descontaminação com quelante anfótero e gluconato de cálcio: relato de caso

Um trabalhador sofreu projeção de ácido hidrofluorídrico a 70% de concentração em aproximadamente 10% de superfície corpórea (SC), causando queimaduras químicas de 1º, 2º e 3º graus em face, tronco e membro inferior esquerdo. A descontaminação inicial envolveu enxágue com água, remoção da vestimenta, e enxágue adicional com mais água, bem como aplicação tópica de solução de óxido de magnésio e analgésico intravenoso para controle da dor. Após retardo de aproximadamente 3 horas, realizou-se descontaminação ativa com 5 litros de solução ativa de um quelante anfótero, Hexafluorine®, seguida de aplicação intravenosa, intradérmica perilesional e tópica de gluconato de cálcio. Alívio da dor e sensação refrescante foram relatados após aplicação do quelante. Não ocorreu intoxicação sistêmica significante, embora isto tenha ocorrido em casos previamente relatados de exposição ao ácido hidrofluorídrico concentrado. Apesar das queimaduras, o paciente foi liberado da Unidade de Terapia Intensiva após 2 dias, e os tratamentos cirúrgicos posteriores, enxertia, tiveram bons resultados.

 

AUTORES:
Carlos Alberto Yoshimura1, Laurence Mathieu2, Alan H. Hall3, Mário G. Kool Monteiro4, Décio Moreira de Almeida5

 

O Ácido Hidrofluorídrico (HF) concentrado (49-70% ou anidro) pode causar queimaduras sérias na pele e intoxicações sistêmicas devido à sua “dupla ação”. O íon hidrogênio (H+ ) causa injúria à pele, criando uma solução de continuidade, permitindo, assim, que o íon fluoreto (F ) penetre no sistema circulatório, resultando em intoxicação importante e colapso cardiovascular por meio da captura de cálcio e magnésio, o que resulta em liberação de potássio pelas hemácias1,2 . Casos de exposição cutânea ao HF concentrado, especialmente na face ou na virilha, de mais de 1-2% da superfície corpórea (SC) raramente sobrevivem3,4 . Procedimentos padrões para a descontaminação envolvem enxágue com água corrente e aplicação tópica de gel de gluconato de cálcio, embora a aplicação tópica de outros produtos, como sais de magnésio, também seja utilizada.

O caso aqui relatado foi de demora de aproximadamente 3 horas após exposição com HF concentrado para início da descontaminação ativa da pele utilizando solução de Hexafluorine®, resultando em alívio rápido da dor aguda e sensação refrescante, com administração intravenosa, intradérmica perilesional e tópica de gluconato de cálcio a posteriori.

RELATO DE CASO

Um trabalhador de 38 anos de idade sofreu projeção de 4 litros de HF a 70% de concentração em face, tronco, coxa e perna esquerda, por conta de uma empilhadeira que esbarrou inadvertidamente em um frasco de HF no andar superior, vindo a projetar-se sobre uma escadaria, destampar-se e extravasar todo o seu conteúdo sobre a vítima, atingindo abdome e membros inferiores (Figuras 1 a 3).

Ainda de uniforme, realizou-se descontaminação inicial com água corrente em chuveiro de emergência por alguns minutos, despido e procedido ao enxágue com mais água.

O paciente foi conduzido ao hospital de referência, onde uma solução de óxido de magnésio foi aplicada nas lesões, com posterior oclusão das mesmas e administrado analgésico intravenoso frente ao quadro álgico, permanecendo em observação

na enfermaria.

Devido à restrição logística (distância) e alguns detalhes técnicos, houve retardo de pouco mais de 3 horas após o acidente, para que solução de Hexafluorine® pudesse ser aplicada na descontaminação tópica ativa. Queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus se desenvolveram.

Durante a aplicação tópica por 5 a 6 minutos com 5 litros de Hexafluorine®, o paciente relatou sensação refrescante e alívio da dor; e os eritemas iniciais de face e tronco retrocederam rapidamente. Em seguida, foram administrados 40 ml de gluconato de cálcio a 10% intravenoso em 500 ml de soro fisiológico a 0,9% e 40 ml de gluconato de cálcio a 10% intradérmico perilesional, além do gel tópico de gluconato de cálcio a 2,5% (Figuras 4 e 5).

Não houve evolução para toxicidade sistêmica como seria esperado, baseando-se em relatos de casos anteriores. O paciente foi liberado da Unidade de Tratamento Intensivo no segundo dia de internação, sem maiores intercorrências, apesar das alterações mínimas em seu cálcio sérico (um valor baixo obtido de 7,9 mmol/L dentro das primeiras 24 h; normal: 8,5-10,5 mmol/L) e magnésio sérico (um valor baixo obtido de 1,4 mmol/L dentro das primeiras 12 horas; normal: 1,9-2,5 mmol/L). Não ocorreu acidose metabólica evidenciada por valores de gasometria arterial. A radiografia de tórax não revelou alterações, bem como o padrão eletrocardiográfico. O paciente foi submetido a procedimentos cirúrgicos na rotina, como debridamentos cirúrgicos e enxertias de pele, com bons resultados (Figuras 6 e 7).

DISCUSSÃO

O método para descontaminação amplamente recomendado para exposição com HF concentrado é o enxágue inicial com água, seguido da aplicação tópica de gel de gluconato de cálcio de 2,5 a 3,0%. Não considerando os efeitos da hipotonicidade, a água remove da pele o HF não absorvido, enquanto o íon cálcio (Ca+2) do gluconato de cálcio liga-se ao íon fluoreto (F) como fluoreto de cálcio (CaF2), mitigando os efeitos cutâneos e sistêmicos.

Entretanto, casos clínicos publicados com o uso de água e gluconato de cálcio na descontaminação inicial e tratamento para exposição ao HF concentrado não forneceram evidências convincentes da eficácia consistente na prevenção de queimaduras cutâneas graves ou toxicidade sistêmica, incluindo óbito. Sheridan et al.5 relataram o caso de um trabalhador que teve 5% de SC atingida (abdome e coxa direita) com HF anidro. A despeito da descontaminação imediata com água e injeção subcutânea de gluconato de cálcio 10%, uma queimadura profunda se desenvolveu, requerendo excisão cirúrgica e enxerto de pele. Nguyen et al.6 reportaram o caso de um trabalhador de manutenção que sofreu projeção de HF anidro no lado direito da face e orelha ipsilateral. A despeito do enxágue imediato com água e aplicação de cloreto de benzalcônio, uma queimadura importante se desenvolveu, requerendo intervenção cirúrgica. Note-se que o acidente foi tratado com infusão de 10% de gluconato de cálcio na artéria carótida direita externa, o que não preveniu o desenvolvimento da queimadura6.

Houve sobrevida em alguns casos de envenenamento sistêmico com HF, entretanto frequentemente ocorreram graves anormalidades eletrolíticas (hipocalcemia, hipomagnesia e hiperpotassemia) e acidose metabólica significante, algumas vezes resultando em anormalidades no eletrocardiograma e, frequentemente, arritmias ventriculares como Torsade de Points, fibrilação ventricular ou outras. Períodos de recuperação tendem a ser significativamente longos em exposições não fatais.

A aplicação do quelante anfótero em exposições pelo HF determina uma descontaminação ativa, mesmo com retardo, como no caso aqui relatado, e pode levar a melhor desfecho e merece consideração. Uso tópico e parenteral de sais de cálcio, concomitantemente, também foi benéfico neste caso, configurando-se numa associação de condutas para descontaminação química diante do HF, com sua gravidade e letalidade notoriamente comprovadas.

 

REFERÊNCIAS

1. Segal EB. First aid for an unique acid, HF: a sequel. Chem Health Saf. 2000;7(1):18-23.

2. Caravati EM. Acute hydrofluoric acid exposure. Am J Emerg Med. 1988;6(2):143-50.

3. El Saadi MS, Hall AH, Hall PK, Riggs BS, Augenstein WL, Rumack BH. Hydrofluoric acid dermal exposure. Vet Hum Toxicol. 1989;31(3):243-7.

4. Chataigner D, Garnier R, Bonin C. Brûlures cutanées et intoxication systémique mortelle secondaires à une projection d’acide fluorhydrique. Arch Mal Prof. 1992;53:13-29.

5. Sheridan RL, Ryan CM, Quinby WC Jr., Blair J, Tompkins RG, Burke JF. Emergency management of major hydrofluoric acid exposures. Burns. 1995;21(1):62-4.

6. Nguyen LT, Mohr WJ 3rd, Ahrenholz DH, Solem LD. Treatment of hydrofluoric acid burn to the face by carotid artery infusion of calcium gluconate. J Burn Care Rehabil. 2004;25(5):421-4.